VOCÊ ESTÁ AQUI:  Início Comunicação CNTE Informa CNTE Informa 606 - 19 de janeiro de 2012 A Europa e o capitalismo
 
A Europa e o capitalismo PDF Imprimir E-mail

Roberto Franklin de Leão
Presidente da CNTE

A crise financeira parece não ter fim. Pior é constatar que suas origens não foram sanadas - tampouco devidamente punidas - e que a classe trabalhadora é quem tem sofrido as piores consequências num cenário de crescente desemprego. O sistema financeiro continua desregulamentado e os bancos, numa bizarra espécie de prêmio, passaram de réus a legítimos possuidores de nações, a exemplo da Grécia e de outros países que caminham para o abandono à própria sorte pela cúpula da União Européia (UE).

Embora soe “teoria da conspiração”, fato é que o império capitalista formado por bancos e financeiras norteamericanos, que dobraram os joelhos do presidente Barack Obama com a ajuda de acionistas correligionários do Partido Republicano, aplicaram um golpe quase fatal (pois a vítima ainda agoniza) numa das poucas consequências responsáveis da Globalização: a União Européia. Atraído para a cilada imobiliária do Tio Sam, o Velho Mundo agora tenta recuperar-se à custa do desmonte de seu estado de bem estar social e da submissão às políticas neoliberais.

Infelizmente, o discurso de quem ainda comanda o Euro (€) aposta nos sofismas econômicos para convencer que a quebradeira é fruto de desequilíbrios fiscais de parte das nações que integram a UE. Escondem que tais desequilíbrios não se transformariam em crise não fosse o poder devastador da descapitalização “virtual” de bancos, que se imaginavam aptos a financiar famílias e países.

Por outro lado, a opção da UE em se deixar conduzir por equilíbrios de mercado - sob o comando de agências como a Standard & Poor's - ao invés de criar prerrogativas a seu Banco Central de ajustes dos financiamentos sociais e dos balanços de pagamentos, agora cobra seu preço. A Grécia, país que até então mais havia valorizado o “custo do trabalho” na zona do Euro, na perspectiva de equalizar o padrão de vida de seus cidadãos com o resto da Europa ocidental, foi a que mais sofreu o golpe de ver interrompida a política de financiamento de sua alavancagem social. Se junta a ela, Portugal, Espanha, Itália, dentre outras nações que têm optado em cortar gastos sociais e em eleger representantes liberais, numa perigosa dilapidação do patrimônio e de abdicação de valores solidários em favor do capital inescrupuloso.

Tudo indica que a estratégia montada pelos especuladores financeiros, similar às apostas de alto risco nas bolsas de valores - com altas possibilidades de lucros e uma suportável acomodação de eventuais perdas - tem dado certo. As nações européias tendem a empenhorar-se diante de instituições privadas (por meio de títulos públicos) e o gigantesco desemprego corroborará com uma “dívida eterna”. O Brasil sofreu golpe com resultado similar à época da sobrevalorização das taxas de juros internacionais e não soube optar, ainda na década de 1970, pela melhor saída que consistia em defender sua soberania e os interesses da maioria da população.

Embora a luta da classe trabalhadora se paute na construção de novos modelos para o desenvolvimento mundial, em substituição ao capitalismo, fato é que uma crise de tamanha proporção e sem consensos sobre que direção tomar não garante a instalação de alternativas comprometidas com as questões de sustentabilidade solidária dos povos. A julgar pela reorientação política européia, o cenário tende a favorecer substituições de potências ou de agentes econômicos, como ocorreu ao longo dos últimos 200 anos, do que propriamente em emergir um novo modelo socioeconômico antiimperialista.

A América Latina, em especial a União de Nações Sul-Americanas - Unasul, tem debatido os desafios do desenvolvimento político, econômico, social, cultural, ambiental e de infraestrutura da Região, visando o bem estar de seus povos e o fortalecimento de um mundo multipolar, equilibrado e justo, no qual prevaleça a igualdade soberana dos Estados e uma cultura de paz sem pobreza, exclusão ou desigualdade social. No caso da UE, embora a defesa da moeda seja condição essencial para a prosperidade das nações, os princípios que deram origem ao Bloco (e posteriormente à União) devem ser sempre sopesados em favor de seus concidadãos.

Cientes de que a crise européia significa a inflexão ou a reafirmação das relações de poder no mundo - ainda que necessário seja reorganizar os princípios do desenvolvimento -, os/as trabalhadores/as brasileiros/as mantêm-se atentos e solidários à luta da classe trabalhadora européia contra os ajustes fiscais que comprometem o emprego, a renda e a própria capacidade de recuperação dos países da Região e outros afetados pela crise mundial. Além disso, conclamam aos líderes da UE que não entreguem seus aliados às garras do mercado, o que só aumentaria a insegurança interna e afastaria o Continente de seu ideal de prosperidade com compromisso social.

 
 
 
 
 
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