O racismo existe e precisa sair das nossas escolas

Publicado em Terça, 14 Novembro 2017 10:03

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Foto: GettyImages

“No passado, a escola pública era excelente. Minha família era pobre, mas mesmo assim eu tive uma Educação muito boa. Hoje, é um desastre!” Essas frases são de uma diretora de escola de São Paulo, na faixa dos 60 anos, alguns meses atrás, depois de um debate do qual participamos. Quando ela terminou de falar, eu respondi que entendia o ponto dela, mas precisava fazer algumas perguntas. A primeira, se ela frequentou uma escola rural ou urbana. Urbana, ela me disse. Depois, se a escola era no centro expandido ou numa periferia distante. No centro expandido, continuou ela. Por fim, perguntei quantos dos colegas dela eram negros. Ela parou. Pensou um pouco. Depois de uma pausa, finalmente disse: “Você tem razão. Eu não tinha colegas negros”.

Embora os números não sejam precisos, muitas pesquisas mostram que as escolas no Brasil, antes da Constituição de 1988, não eram para todos. A evasão era alta, a matrícula era baixa e o resultado era simples. Em 1970, 34% da população brasileira era analfabeta. Hoje, é de menos de 10% – um índice ainda alto.

Nos últimos 30 anos, os números melhoraram, mas não no ritmo necessário. Para piorar, os avanços foram desiguais. O analfabetismo entre negros é de 11,2%. Entre os brancos, de 5%. Quando se olha para os dados do Ensino Médio, mais desigualdade. Hoje, 70% dos alunos brancos de 15 a 17 anos estão nessa etapa. Entre os negros, esse número cai para 55,5%. A escola pública excelente da diretora não era para todos, como ela reconheceu. Mas nossa escola, hoje, também não é.

“E como eu posso mudar isso?” É uma ótima pergunta. Não é fácil, mas um bom começo é mostrar aos seus alunos negros que você acredita neles e que eles podem aprender tanto quanto qualquer pessoa. Parece óbvio quando dito, mas não é banal quando feito. Pesquisas mostram que, mesmo sem se dar conta, muitos professores acreditam menos nos alunos negros. E esses estudantes, muitas vezes, também são mais pobres e vêm de famílias com menos acesso à Educação formal.

Além de acreditar, há outras coisas muito simples que você pode fazer para que esses estudantes também confiem em si mesmos. São práticas capazes de reforçar a autoestima – ou ao menos impedir que ela seja abalada. Por exemplo, não diga que um lápis bege é um lápis cor da pele – a maioria das peles no Brasil não é bege. Nas aulas de Português, estude os grandes escritores negros brasileiros, como Lima Barreto. Em História, lembre-se que a África também faz parte do currículo. Parece pouco, e é. Mas isso já ajuda o aluno negro a se ver como pertencente à escola.

Sim, a Educação não é capaz de mudar o passado do Brasil. Não somos culpados pelos que vieram antes de nós. Porém, podemos construir um futuro melhor para os que já estão aqui – e para os que vierem depois de nós – com todas as cores que temos, com todas as cores que nossos alunos têm.

(Revista Nova Escola, 10/11/2017)

 
 
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