Estudantes e professores dizem que impeachment é golpe na educação

Publicado em Quarta, 13 Abril 2016 11:37

São Paulo – Em mais um ato em defesa da democracia, estudantes e profissionais de educação, do setor público e privado, do ensino básico à pós-graduação, reuniram-se nessa terça-feira (12), no Palácio do Planalto para manifestar apoio à presidenta Dilma Rousseff e contra o processo de impeachment. Eles disseram que os que querem dar um golpe em Dilma querem também frear e reverter os avanços conquistas nos últimos anos na educação pública no país.

"Mais uma vez, a União Nacional dos Estudantes se coloca ao lado da democracia", afirmou a presidenta da UNE, Carina Vitral, lembrando que a entidade teve papel importante na década de 1960, integrando a Cadeia da Legalidade, que defendia a posse do presidente João Goulart e, depois, resistiu durante os anos da ditadura.

"Vários dos nossos dirigentes entregaram suas vidas para lutar pela democracia no nosso país", frisou Carina, fazendo menção à memória do ex-presidente da entidade Honestino Guimarães, desaparecido durante os anos da ditadura civil-militar (1964-1985).

"Nós somos a UNE que lutamos pelo 'Fora Collor', que afastamos um presidente da República. Os estudantes brasileiros, a UNE dos caras-pintadas, diz: para ter impeachment, é preciso ter crime de responsabilidade. Impeachment sem base legal é um golpe à nossa democracia. Nos colocamos contra o impeachment porque acreditamos que, sem democracia, o país não avança", disse Carina. "É por isso que a universidade se levanta, em mais de 100 comitês universitários em defesa da democracia."

Já a estudante de Medicina da Faculdade Santa Marcelina Suzane da Silva, que acessou a universidade graças ao Prouni, agradeceu a Dilma o fato de que jovens como ela puderam adentrar no ensino universitário. "A presidenta Dilma não se curvou à ditadura, da mesma forma que nós aqui presentes, além dos 54 milhões de votos que legitimam a sua eleição, não vamos nos curvar ao golpe que está tentando se impor neste atual momento."

Falando em nome das mulheres negras da periferia, Suzane destacou que o futuro lhe reservava ser uma excelente babá, faxineira, ou empregada doméstica, mas, graças às lutas pela expansão da universidade pública e pelas políticas afirmativas, como as cotas raciais e as destinadas aos estudantes da escola pública, pôde trilhar outro caminho. Ela lembrou ainda que todas as lutas e manifestações em prol da educação só são possíveis em um Estado democrático de direito.

O coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, afirmou que as cerca de 200 entidades que compõem a campanha "apoiam integralmente a democracia" e também defendem "integralmente" a manutenção do mandato de Dilma. Ele destacou avanços no setor como a inclusão das creches no Fundeb, a lei que determinou o piso nacional do magistério e o sistema de cotas, que, segundo ele, está mudando a cara das universidades públicas do país, além dos recursos dos royalties do petróleo e do pré-sal para a educação. Segundo ele, são esses avanços que estão em jogo no atual momento. "Questionar o meu voto, eu não aceito, a Campanha Nacional pelo Direito à Educação não aceita."

Falando em nome dos cerca de 1 milhão de educadores do setor privado, a representante da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Empreendimentos de Ensino (Contee), Madalena Guasco Peixoto, lembrou que a educação foi um direito que se enfraqueceu durante a década de 1990, quando vigoravam as políticas neoliberais. Ela lembrou que as iniciativas golpistas têm como objetivo a retomada dessa concepção de estado mínimo, expressas no programa Uma Ponte para o Futuro, proposto por caciques do PMDB liderados pelo vice Michel Temer, que ameaça direitos sociais e trabalhistas e impõe visão mercadológica para a educação.

A presidenta da Associação Nacional de Pós-Graduandos, Tamara Naiz, frisou que a entidade só passou a existir com o fim da ditadura civil-militar. "Sem democracia, nenhum direito é possível", afirmou, destacando que até mesmo a luta contra a corrupção, suposta bandeira dos que querem o golpe, só é eficaz em ambiente democrático.

A presidenta da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Maria Lúcia Cavalli Neder, representando reitores das universidades, também firmou "defesa intransigente dos princípios democráticos", e destacou a expansão do ensino universitário, durantes os governos Lula e Dilma, juntamente com a democratização do acesso, que classificou como "divisor de águas" para o setor. Maria Lúcia afirmou ainda que contra Dilma não pairam "nenhuma denúncia nem nenhuma suspeita de ter se locupletado com recursos públicos".

Ainda antes do discurso da presidenta Dilma, os ministros da Educação, Aloizio Mercadante, e da Ciência e Tecnologia, Celso Pansera, também se manifestaram contra a proposta de impeachment em tramitação na Câmara. Pansera afirmou que ele e mais dois ministros do PMDB voltarão à Câmara para votar contra o afastamento, que chamou de "terceiro turno".

Já Mercadante, comparando o atual cenário com outros momentos agudos da história do país, como as investidas golpistas contra os presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart, lembrou que todas essas tentativas ilegais de tomada de poder se travestiram de legalidade, mas que o destino reservou a eles "o lixo da história", enquanto os ex-presidentes figuram em destaque.

(Rede Brasil Atual, 12/04/2016)

 
 
 
 
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