Artigo: Literatura feminista caboverdiana nas obras de Orlanda Amarílis e Dina Salústio: breves reflexões

Elizangela de Almeida Silva - Presidente Estadual da União de Negros pela Igualdade (UNEGRO), Professora de Língua Portuguesa e Conselheira dos Direitos da Mulher no Amazonas

"As noções de linguagem feminina ou mesmo de identidade feminina, enquanto construções sociais, exigem a avaliação das condições particulares e dos contextos sociais e históricos em que foram estruturadas". Heloísa Buarque de Hollanda

A interação das literaturas de língua portuguesa ainda possui um longo caminho a ser percorrido, e apesar de estarmos ligados culturalmente ao continente africano prevalece certo distanciamento entre essas manifestações literárias. A proposta apresentada aqui tem como finalidade intensificar as reflexões sobre o quanto são raras as menções a textos literários de autoria africana, principalmente quando se trata de mulheres.

Deve-se ressaltar em meio a esse processo, a Lei 10.639/2003 que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e estabelece a obrigatoriedade nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, a inclusão do estudo da História da África, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e sua contribuição nas áreas social, econômica e política pertinente à História do Brasil.

Nesse sentido, investigar a escritura literária de autoria feminina em Cabo Verde supõe compreender suas personagens a partir de reflexões sobre questões socioculturais, representações identitárias e processos de resistência ligados à perspectiva feminista e de gênero. Para isso, propõe-se dar voz às mulheres à luz de uma história social marcada pela diversidade de gênero, raça, classe social e orientação sexual.

O lado feminino do cânone literário universal ainda é muito silenciado pela história e pela crítica, por isso torna-se relevante reconhecer as autoras Dina Salústio e Orlanda Amarílis como emblemáticas no panorama das literaturas de língua portuguesa, na história do feminismo, nas discussões sobre africanidades em solo crioulo e até mesmo brasileiro, dada à ligação histórica evidente entre Brasil e África.

Com o surgimento do movimento feminista (1970), eclode o que chamamos de crítica feminista, essa vertente da crítica literária permitiu a comprovação de que a experiência da mulher como escritora e leitora é diferente do homem, o que demonstra mudanças significativas no campo intelectual, marcadas pelo rompimento de paradigmas e pela descoberta de novas expectativas relacionadas ao universo feminino e suas produções literárias. (ZOLIN, 2009)

Queiroz (2010) assinala algumas particularidades interessantes:
[...] a produção literária feminina cabo-verdiana [...] traz à tona textos cujos temas revelam as experiências sociais das mulheres que vivem os mesmos dilemas, paixões e desencantos, destacando suas angústias, medos e conquistas. A escritura de autoria feminina busca representar o cotidiano de mulheres que reinventam a historicidade enfatizando o mundo doméstico feminino, os avanços à emancipação das mulheres, as violências, as discriminações, a iniciação sexual precoce seguida de gravidez indesejada, a falta de planejamento familiar, a prostituição, enfim, a
problemática social que insiste em se estabelecer. (QUEIROZ, 2010, pp 4-5)

À identidade da nação soma-se a do assim chamado ‘gênero’. Não se trata apenas de representar Cabo Verde, mas de construir a maneira de ser das mulheres cabo-verdianas. Sendo assim, a leitura do texto literário, quando se toma como instrumento as considerações providas pela crítica feminista, implica em pesquisar as marcas de gênero que são apresentadas por meio de um processo de desnudamento, o qual visa o despertar do senso crítico e a promoção de mudanças de mentalidades. (ABDALA JÚNIOR, 1999) Orlanda Amarílis Lopes Rodrigues Nasceu em 1924, na Assomada, Santa Catarina, ilha de Santiago, é considerada uma notável contista da ficção cabo-verdiana. Seus contos relatam problemas sociais vivenciados pelas mulheres e a emigração se configura como uma das questões principais abordadas na sua produção ficcional.

A escritora publicou vários livros de contos -”Cais de Sodré Té Salamansa”, “Ilhéu dos Pássaros” e “A Casa dos Mastros”. Pela importância da sua obra, Amarílis liderou a geração de mulheres, sobretudo na ficção, que ajudou a modernizar a literatura cabo-verdiana, abrindo as portas para Dina Salústio e outras. Dina Salústio é escritora e poetisa cabo-verdiana nascida em 1941, nasceu em Santo Antão, Cabo Verde e foi fundadora da Associação dos Escritores Cabo-verdianos. Autora de contos infantis, como “A estrelinha Tlim Tlim” e uma obra ficcional abrangente com 35 contos em “Mornas Eram as Noites”.

Quanto à representação social feminina e literatura cabo-verdiana, as mulheres escritoras edificaram um legado literário que vem se sobressaindo e crescendo a cada dia, elas produziram uma subcultura dentro dos limites da sociedade regulada por uma ideologia patriarcal, assim como os grupos minoritários: negros, índios, homossexuais, dentre outros. Orlanda Amarílis é uma das mais expressivas escritoras que relatam os problemas sociais e os contemporâneos vivenciados pelas mulheres em seus contos, fato que leva Fernando Mendonça (1983), a considerar que [...] Orlanda Amarílis é uma tradução fiel da vida insular, utilizando inclusivamente o dialeto crioulo nas suas narrativas, portanto, é possível afirmar que ela pertence à estirpe de escritoras que souberam ou sabem, como ninguém, fixar os instantes do solitário e do amargo. (MENDONÇA, 1983, pp. 65)

Amarílis preocupa-se em retratar pessoas, em especial mulheres cabo-verdianas, com seus dramas, sofrimentos e também a solidão que as irmana e as solidariza num universo marcado por enormes desigualdades sociais, no qual o papel da mulher precisa ser constantemente reafirmado e reassegurado.

Sobre Dina Salústio, Queiroz (2010) enfatiza:

Os contos de Dina Salústio colocam em voga as situações vividas por mulheres, sem rostos ou nomes, as problemáticas que tocam as mulheres cabo-verdianas e as mulheres num panorama geral. A temática é diversa, de violência conjugal, de afetos mal resolvidos, de atração sexual, de alcoolismo, gravidez precoce, pedofilia, enfim, Dina é uma escritora que não teme críticas por denunciar e expor quadro a quadro, estórias femininas presenciadas, ouvidas e experiências vividas. (QUEIROZ, 2010, pp. 100)

Em “Forçadamente mulher, forçosamente mãe” o tema é gravidez precoce, gestação essa, que pesa e destroça os sonhos de adolescentes. O leitor faz contato com a dura realidade da personagem Paula, grávida e abandonada pelo namorado aos dezesseis anos.

Em Setembro fará calor. Para Setembro Paula terá seu filho. Ainda há dias ela ria e dançava pelos cantos. E juntava conchinhas cor-de-rosa na praia. E colecionava sonhos. Que é das conchinhas? Que é dos sonhos? Hoje carrega penosamente uma barriga enorme. Sozinha. E as ilusões vão-se perdendo nos vómitos da gravidez.

A emocionalidade feminina se expressa na fala da narradora, revelando sentimentos de angústia, revolta e indignação contra a animalização do homem. Pela ótica da autoria feminina adentramos o universo destas mães crianças que cuidarão de outras crianças e compartilhamos com elas suas dores e desamores. Fica clara a preocupação dilacerante de uma narradora comprometida, que se perde numa atitude reflexiva e questionadora, de modo a fazer, também, refletir o leitor.

As relações entre ficção e história como objeto de estudo e interpretação, apontam para o imperativo da transposição de fronteiras do conhecimento e abertura para possibilidades teóricas entrecruzadas, capazes de apreender, no literário, as concepções imaginárias constitutivas das identidades. Inter-relacionam-se, assim, nesse plano de análise, os movimentos de interação entre mundo real e possíveis mundos ficcionais.

Referências

ABDALA JÚNIOR, Benjamin. Orlanda Amarílis, literatura de migrante. Via Atlântica.
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas.

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Universidade de São Paulo, FFLCH-USP. São Paulo, n. 2, jul. 1999, p. 76-89.

AMARÍLIS, Orlanda. Cais-do-Sodré te Salamansa. 2. ed. Lisboa: ALAC, 1991. BRASIL. Lei 10.639 de 09 de janeiro de 2003. D.O.U. de 10 de janeiro de 2003.

GOMES, Simone Caputo. Uma recuperação de raiz: Cabo Verde na obra de Daniel Filipe . Praia : Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco, 1993.

HOLLANDA, Heloísa Buarque de (Org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura.
MENDONÇA, Fernando. Orlanda Amarílis. Revista de Letras . São Paulo. 23: 63-70, 1983.

QUEIROZ, Sônia Maria Alves de. Breves reflexões sobre a representação social das
mulheres cabo-verdianas: a hermenêutica do cotidiano. Revela. Periódico de divulgação
Científica. Periódico de divulgação da FALS. Ano IV – Nº IX – set/2010.

SALÙSTIO, Dina. Forçosamente mulher, forçosamente mãe in Mornas eram as noites, Instituto da Biblioteca Nacional – Direção do Livro – Praia, 2002, pp.35-36.

SANTILLI, Maria Aparecida. Africanidade. São Paulo : Editora Ática, 1985. (Contornos Literários)

ZOLIN, Lúcia Osana. Crítica feminista. In: BONNICI, Thomas e ZOLIN, Lúcia Osana (org.). Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. 3. ed. rev. e. ampl. Maringá: Eduem, 2000.

 
 
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