2020 03 27 giro df sus gripeespanhola covid
Nesta semana, o Laboratório de Dinâmica de Doenças da Universidade de Brasília (UnB) fez uma projeção dos impactos do novo coronavírus só no Distrito Federal, sem contabilizar o Entorno, e constatou que a previsão será de 350 mil casos sintomático e sete mil óbitos pelo Covid-19 no DF neste período. O índice de contaminação é semelhante ao número de mortes pela gripe espanhola 102 anos atrás.

Além da semelhança do número de contaminação, o caos também está parecido ao ocorrido entre os anos 1918 e 1920, no Brasil, com a chegada, em setembro de 1918, do transatlântico Demerara, procedente da Europa, que atracou em alguns portos, como no do Rio de Janeiro, de Salvador e de Recife, e desembarcou centenas de passageiros infectados pela gripe espanhola. Um mês depois, o País inteiro já estava submerso numa das mais devastadoras epidemias da sua história.

Diante do caos da pandemia do coronavírus, o jornal El País ousou lembrar da importância da existência do Sistema Único de Saúde (SUS) – uma estrutura gigantesca, erguida dentro das mais avançadas normas da eficiência e eficácia, capaz de suportar uma epidemia e qualquer outra onda de doenças letais que avance sobre a população mais carente. O SUS surgiu durante a avassaladora passagem da gripe espanhola (vírus influenza) no Brasil, entre 1918 e 1920. Na época, o influenza matou milhares de brasileiros.

Na primeira quinzena de março, o jornal El País resgatou esse momento da história do século XX e contou um pouco do terror vivido. A pandemia infectou 500 milhões de pessoas ao redor do mundo, cerca de um quarto da população do planeta na época. O caos estava nas ruas do Brasil, um país sem uma estrutura pública de saúde e que, por causa disso, registrou mais de 300 mil mortes pela gripe espanhola.

Nos anos 10 e 20 do século passado, não havia hospitais e nem serviço público de saúde no Brasil. Havia Santas Casas de Misericórdia, geralmente por iniciativa da Igreja Católica, que viviam de doações e de cobrança monetária dos atendimentos de quem podia pagar. Na época, as pessoas de maior poder aquisitivo se isolaram em suas fazendas. A maior parte das mortes ocorreu nos bairros mais humildes, nas favelas, na classe média e entre a população mais carente.

Esse comportamento da elite rica de se isolar na fazenda é típico do empresariado brasileiro e se repete hoje com a pandemia do coronavírus. Apesar conhecer como ninguém o impacto devastador do coronavírus, parte do empresariado tem divulgado, sobretudo nas redes sociais, que o Covid-19 é uma “gripezinha” e que não justifica o isolamento social e o fechamento do comércio. Fazem isso porque eles têm como se isolar em suas residências de alto luxo e muito dinheiro para usufruírem de alta tecnologia para encaminhar suas ordens a distância. Os funcionários que morram com a epidemia.

Gripe espanhola devasta o Brasil
Os dados sobre os impactos da gripe espanhola no Brasil (e no mundo) estão no Acervo do Senado Federal em documentos históricos com relatos de parlamentares, da imprensa e de outros da época. Os documentos dão conta de que a pandemia do vírus influenza aterrorizou o povo brasileiro:

“— Cadáveres jazem na porta das casas, atraindo urubus. O ar é fétido. Os raros transeuntes andam a passos ligeiros, como se fugissem da misteriosa doença. Carroças surgem de tempos em tempos para, sem cuidado ou deferência, recolher os corpos, que seguem em pilhas para o cemitério”, contam. O deputado Sólon de Lucena, da Paraíba, declarou, à época: “— Por toda parte, o pânico, o assombro, o horror!”

Os jornais da época registraram a situação do País: “Em todo o Brasil, os hospitais estão abarrotados. As escolas mandaram os estudantes para casa. Os bondes trafegam quase vazios. Das alfaiatarias às quitandas, das lojas de tecido às barbearias, o comércio todo baixou as portas — à exceção das farmácias, onde os fregueses disputam a tapa pílulas e tônicos que prometem curar as vítimas da doença mortal. Nos subúrbios do Rio de Janeiro, as ruas ficam cheias de cadáveres porque as famílias ficam com medo de serem infectadas pelos mortos dentro de casa”, relatam os arquivos.

Pandemia mata o Presidente da República
Os Arquivos do Senado e da Câmara dos Deputados, em Brasília, mostram como o Brasil de 1918 se comportou diante da doença. O comércio fechou. O Congresso Nacional também. O Brasil presenciou a quase falência dos serviços de higiene e assistência públicas. Rodrigues Alves, presidente da República recém-eleito, acometido da gripe espanhola, não pôde assumir o cargo. Seu vice, Delfim Moreira assumiu. Porém, Alves morreu em janeiro de 1919 e uma eleição fora de época foi convocada.

Foi do meio dessa pandemia que surgiu a ideia de construir um sistema de saúde pública, patrimônio do Estado nacional, que desse conta da saúde pública brasileira e fosse capaz de enfrentar os piores desafios. Dentre as ideias e projetos recusados pelo governo da época, o deputado Azevedo Sodré apresentou um que promoveria a diretoria a Ministério da Saúde Pública e que plantava a semente do SUS.

Na virada de 1919 para 1920, o Congresso Nacional aprovou e o presidente Epitácio Pessoa sancionou uma reforma na estrutura federal de saúde. Surgiu o Departamento Nacional de Saúde Pública e outras soluções. Essa decisão resultou na criação do Ministério da Saúde, em 1930, com o nome de Ministério dos Negócios da Saúde e da Educação Pública; e na implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), instituído 60 anos depois, por meio da Constituição de 1988: com uma estrutura que envolve o Ministério da Saúde, estados e municípios.

Se a gripe espanhola ensejou a criação do SUS, o novo coronavírus (Covid-19) veio agora, diante desse 5 anos de intensos desmonte das estruturas de saúde e educação do Estado, reforçar a importância do maior e mais eficiente sistema de saúde do mundo.

O fim do SUS
Há um dizer no País que diz que o brasileiro tem memória curta e não se lembra das tragédias do passado. Talvez seja por isso que vive repetindo os erros do passado e não se mobiliza contra a destruição do SUS. É ele o único instrumento público brasileiro capaz de atender indistintamente a todos e amenizar a pandemia do coronavírus no País.

O desmonte começou com a implantação à força das ideias neoliberais no Brasil, por meio de um golpe de Estado materializado em 2015 pelas mãos do político Michel Temer, do alto empresariado brasileiro e EUA. O governo Bolsonaro só aprofundou o desmanche de um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde pública do mundo, abrangendo desde o simples atendimento para avaliação da pressão arterial, por meio da Atenção Primária, até o transplante de órgãos, garantindo acesso integral, universal e gratuito para toda a população do País.

Com a sua criação, o SUS proporcionou o acesso universal ao sistema público de saúde, sem discriminação. A atenção integral à saúde, e não somente aos cuidados assistenciais, passou a ser um direito de todos os brasileiros, desde a gestação e por toda a vida, com foco na saúde com qualidade de vida, visando a prevenção e a promoção da saúde.

Hoje, da Emenda Constitucional nº 95/2016, que congelou por 20 anos os investimentos do Orçamento público brasileiro nas áreas sociais, afetando profundamente e promovendo o desmonte do SUS, é ele o único suporte capaz de enfrentar a pandemia do novo coronavírus. O Brasil precisa aprender que saúde e educação não são mercadorias.

As tragédias do passado com suas experiências vividas e seus resultados são exemplos para a vida toda. E não para serem esquecidos porque há uma meia dúzia de empresários e políticos ricos que querem se apropriar das estruturas e do dinheiro do Estado para lucrarem com saúde e educação públicas.

(Sinpro/DF, Maria Carla, 26/03/2020)