DEBATES

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 Foto: Divulgação/CNTE

O VI Movimento Pedagógico Latino-americano encerrou nesta terça (20) a celebração do Centenário de Paulo Freire, em Recife (PE). A palavra de ordem das trabalhadoras e trabalhadores foi: "Unidade da América Latina na luta em defesa de uma política educativa pública, de qualidade e independente".

Funcionários de escolas e professoras e professores de diversos estados brasileiros, da Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Colômbia, Peru, Costa Rica, EL Salvador, Honduras, Guatemala e Panamá se encontraram presencialmente pela primeira vez, depois de mais de dois anos de pandemia. O objetivo foi debater, refletir e pensar ações conjuntas para enfrentar a onda neoliberal e ditatorial que paira no mundo e esta herança colonizadora que estrutura os modus operandi de um sistema que não valoriza a história e nem respeita os povos originários destes países.

O presidente em exercício da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Roberto Leão, disse que esse movimento pedagógico acontece para recuperar as energias neste momento difícil que o país passa e também para voltar a debater sobre a importância de um processo educativo que respeite a cultura, a história e o povo e apontar saídas para resistir aos ataques que a educação sofre em toda região latino-americana.

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Para ele, a conclusão deste encontro é que é preciso continuar na luta por uma educação progressista e libertadora, que seja pautada no nosso passado histórico, das tradições e cultura de um povo. Além disso, segundo o professor, é preciso lembrar que os brasileiros e as brasileiras receberam influência europeia, mas também dos povos originários, das pessoas que foram escravizadas

“Nós somos resultados de um processo de colonização européia e branca que quando chegou aqui encontrou o povo aqui vivia e trouxe da África pessoas escravizadas e por isso queremos uma política pedagógica que efetivamente respeite a nossa história e o passado dos povos da América Latina. Por isso é fundamental uma educação que seja libertadora, emancipadora e inspirada em Paulo Freire, construída por nós e para nós”, afirmou o presidente interino da CNTE, que também é vice-presidente da Internacional da Educação (IE).

Este é o sexto encontro do movimento pedagógico, que acontece a cada dois anos desde 2011, realizado pela Internacional da Educação para América Latina (IEAL) com apoio e participação das entidades brasileiras filiadas à CNTE e a Federação de Sindicatos de Professores e Professoras de Instituições Federais de Ensino Superior e de Ensino Básico Técnico e Tecnológico (PROIFES).

A secretária-geral da CNTE e vice-presidenta da IEAL, Fátima Silva, relatou que este encontro foi importante para reafirmar a unidade dos sindicatos filiados à IE, ressaltar a importância do Estado para garantir o direito à educação para todas e todos, destacar a defesa da escola e universidade públicas e frisar o direito dos/as estudantes e profissionais da educação.

“Neste momento estamos terminando este encontro pedagógico para reafirmar que uma pedagogia latina-americana precisa ter todas as nossas cores, com indígenas, negros e negras, caribenhos as africano, porque foi isso que nos ensinou o legado de Paulo Freire. A educação não basta ser pública, tem que ser de qualidade, inclusiva, democrática, emancipadora e precisa ser dialógica e é isso que traçamos aqui”, explica.

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Foto: Divulgação/CNTE

Conjuntura na América Latina

Na abertura do VI Encontro Pedagógico, foi apresentado o depoimento do presidente do Comitê Regional da IEAL, Hugo Yasky, em vídeo. Ele contou que a Argentina vem passando por momentos difíceis como o brutal atentado sofrido pela vice-presidenta Cristina Fernández de Kirchner e que o ministro da educação, o doutor Alberto Sileoni, permitiu e estimulou o debate desse tema como parte da atividade pedagógica nas escolas de Buenos Aires.

“O fato é que a escola, como disse Paulo Freire, tem que ser uma continuidade da vida. Não pode ser uma espécie de espaço vazio onde as questões que abalam uma sociedade não possam repercutir. A decisão do ministro de introduzir esse tema em sala de aula provocou a reação da Direita, exigindo furiosamente que a escola se calasse, pois falar sobre o atentado, segundo eles, é para doutrinar. Isto me lembrou muito a situação do Brasil, quando Bolsonaro decidiu iniciar uma caça às bruxas, onde a referência era justamente Paulo Freire”, refletiu Hugo Yasky.

Para o presidente do Comitê Regional da IEAL o legado do patrono da educação brasileira segue presente. “Lembramos o Paulo Freire, não com nostalgia, não como alguém que pára e olha para trás, olhando o passado. Lembramos Paulo Freire olhando o presente e o futuro de nossas lutas. Lembramos Paulo Freire como parte dos horizontes que nos estimulam a empunhar a bandeira da escola pública como parte das lutas populares”.

O jornalista e fundador do portal Opera Mundi, Breno Altman, também participou da abertura do evento e falou sobre os golpes na América Latina. Ele abordou os efeitos sociais da crise econômica mundial de 2008, em que os Estados imperialistas procuraram reduzir seus custos econômicos por meio da retirada de direitos de trabalhadores e trabalhadoras dos países latino-americanos.

Na visão do jornalista, foi nesse ciclo que diversos golpes de estado ocorreram, pois os países imperialistas "não poderiam continuar permitindo na América Latina governos que impediam ou até mesmo que tentavam alterar os padrões de exploração”. Ele explica que era necessário retirar de cena esses governos e restabelecer políticos dispostos a uma nova agenda neoliberal ainda mais radical de supressão dos direitos da classe trabalhadora e da soberania nacional.

Breno Altman considera que a esquerda na América Latina tem o desafio de encontrar força política e social para romper com esse modelo neocolonial da dependência externa que condenou a maioria dos povos latino-americanos a uma vida miserável - e a educação pública é essencial para enfrentar isso. "O setor público da educação é uma ferramenta fundamental para criar força contra o modelo neoliberal. Porque é a educação pública que pode elevar massivamente a consciência dos nossos estudantes e também dos nossos professores. A educação privada não fará isso”, ressaltou.

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Foto: Divulgação/CNTE

Balanço

O coordenador da IEAL, Combertty Rodriguez Garcia, avalia que este sexto encontro pedagógico trouxe reflexões importantes sobre o futuro da educação, da profissão docente e dos sindicatos, com análises profundas das organizações.

“A gente viu aqui que diversos países passam pelos mesmos problemas, como privatização da educação e a redução do papel do Estado e a desvalorização dos professores e das professoras. Os sindicatos de educação têm esse desafio de levar para seus países propostas claras e concretas na defesa da educação pública com qualidade, baseada nos princípios de Paulo Freire, para se recuperarem deste novo contexto que a pandemia deixou”, afirmou.

Para a diretora de comunicação do PROIFES-Federação, Gilka Pimentel, as apresentações realizadas neste último dia de encontro foram muito enriquecedoras para os processos de construção coletiva junto às bases dos sindicatos.

“Saímos da atividade com o sentimento de fortalecimento e, ao mesmo tempo, conscientes dos imensos desafios que estão colocados para o Movimento Pedagógico Latino-Americano”.

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Foto: Divulgação/CNTE

Pandemia e o impacto na educação

Na terça-feira (20) pela manhã foram apresentadas duas pesquisas sobre a pandemia e o impacto na educação. A Dra. Dalila Andrade trouxe para os debates o resultado da pesquisa “Trabalho Docente em tempos de pandemia: Um olhar regional latino-americana” com o objetivo de entender como os sistemas escolares se adaptaram para receber os alunos na pandemia . A pesquisa trouxe subsídios para os sindicatos negociarem condições da volta ou não das aulas presenciais e da estrutura da escola.

A investigação, que aconteceu em 12 países, mostrou que a crise sanitária mundial aprofundou as desigualdades da região, revelou mudanças no processo da educação e apontou situações desafiadoras. O estudo denuncia que na pandemia houve perda de direitos, aumento da evasão escolar e do número de empregos perdidos, além de faltar estrutura e formação tecnológica para discentes e docentes.

“Se não fosse o compromisso dos docentes com a educação e os/as alunos/as as perdas seriam muito maiores. A dificuldade do trabalho remoto era sobretudo a dificuldade dos docentes em lidar com estas tecnologias digitais, e os nossos professores passaram a trabalhar muito mais na pandemia, principalmente as mulheres, porque foi preciso adaptar o planejamento e interagir com os alunos de outra forma”, contou a doutora.

O professor José Manuel Valverde apresentou outro estudo que mostra “Experiências Didáticas, Pedagógicas e Laborais da Prática Docente em Tempos de Covid-19 na América Latina”. O objetivo do levantamento foi analisar a repercussão no âmbito familiar, dos professores e das professoras e da população sobre as aulas não presenciais na Costa Rica, Honduras, Paraguai, Argentina, Brasil, Chile, El Salvador, Panamá , Peru e República Dominicana.

Segundo ele, os principais destaques destas experiências foram a inovação, criatividade e o compromisso docente por um lado e por outro a ausência das autoridades, de conexão e falta de equipamentos praticamente em todos os países.

“Aulas virtuais, semi presenciais e híbridas, orientações por telefone ou Whatsapp e visita docente nas casas e nas comunidades foram algumas das modalidades apresentadas. Para conseguir manter os/as alunos/as engajadas nas salas de aula foi preciso produzir conteúdo com projeção de vídeos e músicas, compartilhar recursos digitais com jogos, teatro, desenho e em muitos casos algumas professoras davam apoio econômico”, finalizou o professor Valverde.

Veja as outras matérias da Celebração do Centenário de Paulo Freire:

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Veja a seguir as gravações do evento, transmitido pela página da CNTE no Youtube