Crianças e jovens dão lição de consciência ambiental e tomam as ruas do mundo por um futuro melhor

Em 2019, o que mais chamou a atenção nas manifestações sobre o clima foi a participação e o protagonismo, cada vez maior, de crianças e jovens. O nome que mais marcou as manchetes pelo mundo foi o de Greta Thunberg, a ativista ambiental sueca, de 17 anos, que ficou conhecida por protestar fora do prédio do parlamento de seu país.

Em agosto de 2018, Greta faltava aula para exigir dos políticos da Suécia mais ações para minimizar as mudanças climáticas. Depois disso, estudantes de outras comunidades se organizaram em protestos semelhantes ao dela, batizando o movimento de “Fridays for Future”. Em dezembro de 2019, a jovem foi considerada Personalidade do Ano pela revista
norte-americana Time.

No Brasil, duas jovens ativistas se destacaram: Nayara Almeida e Catarina Lorenzo. Nayara, ou “Garota da Echarpe Climática”, como é chamada pelos amigos, tem 21 anos, é bióloga, mora no Rio de Janeiro e participa do projeto Engajamundo. A jovem é uma entre 1,5 milhão de pessoas que foram às ruas, em mais de 100 países, em setembro de 2019, em uma imensa marcha pelo clima e a salvação do Planeta.

“No dia 20, eu estava em Brasília (DF) e fizemos muito barulho por lá. Eu vi muita gente de diferentes lugares se unindo a nós”, comenta Nayara. “Foram meses de preparação
das, pelo menos, 65 greves ao redor do Brasil, dando orientação, fundando novos núcleos do Fridays For Future, fornecendo material científico, compartilhando as ideias”, enumera a jovem ativista.

Nayara Almeida aposta em ações locais para interromper o aumento da temperatura do Planeta Para Nayara, a participação nessa luta tem que ser de todos, mas os jovens estão protagonizando essa agenda há um bom tempo. “Nós somos um potencial e, por essência, temos o gás extra que nossos tomadores de decisão, por exemplo, não têm”, constata. “Somos ousados, criativos e temos um norte muito bem definido, pautado na ciência: precisamos parar o aumento da temperatura do Planeta e sabemos quando queremos:
Agora. Colocamos a mão na massa sem medo de ousar e estamos pressionando para que o processo de tomada de decisão, do nosso futuro, inclua as pessoas, para que elas possam usar sua voz e decidir que planeta elas querem viver”, completa.

Pensando no futuro, Nayara faz um apelo. “A gente precisa se unir ainda mais, reconhecer nossas realidades e, a partir delas, agir. Da onde você está; com quem está ao seu redor; com o que você tem. O que não dá é para ficar parado”, complementa a “garota da echarpe climática". Com apenas 12 anos, a surfista baiana Catarina Lorenzo marcou presença em um dos maiores protestos pelo clima na história e assinou uma denúncia contra Brasil, Alemanha, Argentina, França e Turquia, no Comitê das Nações Unidas sobre os Direitos das Crianças. A ação foi apresentada em Nova Iorque, em Jovens lembram que nós só temos um planeta — se a temperatura aumentar não há para onde fugir.

Segundo a acusação, esses países estariam violando os direitos humanos ao desrespeitarem acordos e não adotarem políticas adequadas sobre as mudanças climáticas. “Foi uma das melhores experiências da minha vida”, comemora Catarina. “Fiquei muito feliz de ver tantos jovens, não só em Nova Iorque, mas dos outros lugares do mundo, lutando pelo seu direito de ter um futuro e pelo planeta Terra”, enfatiza a surfista. Ela se juntou à petição com a ajuda da entidade Heirs To Our Oceans, que havia descoberto a jovem por meio de uma amiga na Califórnia.

“Durante um treino em uma piscina natural cheia de corais, em Maraú (BA), percebi que o maior coral que tinha ali estava cheio de pontinhos brancos, e isso significa que estava morto”, conta a baiana. “Também percebi que a água estava muito quente perto da superfície. Mergulhei e toquei a areia, na tentativa de fazer a água esfriar. Só que a areia também estava quente. Não aguentei a temperatura e saí da água. Não me senti bem. Fiquei sem entender o que estava acontecendo e como os peixes, corais e outros seres vivos iriam sobreviver lá. Um tempo depois, comentei com uma amiga que mora na Califórnia (EUA) e disse a ela que tínhamos que ajudar os corais. Ela contou o que havia acontecido comigo, para algumas pessoas que participavam de um grupo que cuida dos oceanos, e minha história foi indicada para ser contada na ONU”, lembra a adolescente.

Na opinião de Catarina, crianças e adolescentes, como ela, pagarão pelos problemas que os adultos criaram no passado e continuam criando no presente. “Nós temos que participar dessa luta, porque somos nós que estaremos no futuro para pagar as consequências dos atos do presente. Para aqueles que ainda não estão agindo, eu só peço que comecem
agora, porque o tempo de agir, daqui a pouco, vai se esgotar”, assevera a pequena surfista.

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