Feministas da Argentina viram a mesa nas urnas e estão garantindo a implantação de uma política mais justa e igual para todos

Em outubro de 2019, mais de 500 mil feministas de toda a América Latina, e de outras partes do mundo, participaram do 34º Encontro Plurinacional de Mulheres, Lésbicas, Travestis, Pessoas Trans e Não Binárias, na cidade argentina de La Plata, na província de Buenos Aires. A maior edição do evento, em mais de três décadas de história, reuniu diversos grupos de diferentes movimentos feministas e acabou tendo um papel fundamental no resultado das eleições naquele país. Nas urnas, argentinas e argentinos disseram não ao governo neoliberal de Mauricio Macri e elegeram a chapa de esquerda encabeçada por Alberto Fernández.

“Nesse período, em que a primeira greve geral contra o governo foi convocada pelo movimento de mulheres, o feminismo assumiu a liderança na construção da unidade
necessária para enfrentar o neoliberalismo”, explica Yamille Socolovsky, da Central de Trabalhadoras da Argentina (CTA). Para ela, os movimentos feministas ocuparam um papel
importante para o resultado das eleições. “Tornou visível o impacto destrutivo desse programa nos setores populares, e particularmente em mulheres e LGBTs, incentivou as jovens
a se envolverem em ações políticas, permitindo que novas líderes fossem socialmente referenciadas”, completa.

“Este encontro é como um parâmetro para avaliar o que acontece no cenário político de nosso país”, afirma Laura Viviana Zoraya Mata, do Coletivo Feminista Abolicionista
Somos Todos Andrea (nome que faz referência à Andrea López, uma jovem que foi assassinada pelo marido). “Os últimos quatro anos foram de feminização da pobreza e de
reveses nos direitos: uma mulher é assassinada a cada 27 horas na Argentina por violência sexista; há uma morte a cada 96 horas de um transexual, mulheres com menos de 30 anos
estão desempregadas em 23% e as que trabalham recebem em média 27% menos que homens”, enumera.

Impactos na comunidade LGBTs
Para Érika Noely Moreno, da Rede Diversa Positiva – entidade que há 35 anos trabalha na Argentina pelos direitos das pessoas com HIV e da comunidade de travestis e transexuais – os impactos das políticas neoliberais para essa comunidade foram muito severos, mas houve união e resistência: “Enfrentamos os obstáculos e conseguimos sustentar nossas leis e direitos”, explica Érika. “Conseguimos obter uma identificação não binária, além de cuidados de saúde com atenção hormonal. Ainda há muito trabalho, mas vamos conseguir esses direitos juntos”, afirma.

Nem uma a menos Judith Said, da Rede Federal de Mulheres (RFM), relembra que no dia 8 de março de 2017 aconteceu a greve internacional das mulheres, que promoveu o #NiUnaMenos (Nem uma a menos): “Mais de um milhão de pessoas se mobilizaram, em todo o território nacional, para rejeitar políticas neoliberais, a criminalização de protestos, defender o aborto legal, o fim da violência e trabalho decente para todos. Esse movimento cresce em número e em sua composição social em todo o país e com um forte conteúdo político. Sem dúvida esse movimento teve sua marca nas últimas eleições”.

Legalização do aborto
Tema considerado tabu no Brasil, na Argentina a onda dos Lenços Verdes (símbolo do aborto legal) se manteve firme, mesmo em época de eleições. Desde candidato, o presidente Alberto Fernández se pronunciou claramente a favor da legalização do aborto, considerando-o uma questão de saúde pública, justiça social e respeito à autonomia. Yamille Socolovsky destaca: “Ele constituiu, pela primeira vez, um Ministério Nacional da Mulher, Gênero e Diversidade. Além disso, na província de Buenos Aires, nosso governador Axel Kicillof criou um ministério semelhante e convocou  Estela Díaz, secretária de gênero do CTA-T para organizá-lo e conduzi-lo. Para nós, é uma conquista coletiva que nos traz muita alegria e esperança. É um sinal do que já alcançamos e do quanto ainda podemos alcançar”, comemora.

A pesquisadora Noelia Gómez, do Coletivo de Filósofas Feministas, da Universidade Nacional de La Plata, pondera que, embora seja um gesto político enorme do atual presidente da Argentina, esse é o resultado dos movimentos de mulheres e dissidentes sexuais, que estão nas ruas e que integraram a Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Livre, iniciada no anos 1990. “O Presidente declarou, em 31 de dezembro, que o Poder Executivo vai fazer com que o projeto de descriminalização do aborto seja tratado em 2020 no Congresso Nacional. Essa linha foi reforçada com a nomeação do Ministro da Saúde, Ginés García González que, nos primeiros dias, anunciou o novo protocolo de Interrupção Legal da Gravidez”.

Mulheres do Brasil
Na avaliação de Angela Albino, Secretária Nacional de Relações Institucionais da União Brasileira de Mulheres (UBM), o movimento de mulheres tem se mostrado, no mundo todo, mas em especial na América Latina, como uma força capaz de congregar pessoas de todas os matizes em defesa da Democracia e contra os retrocessos impostos pelas agendas ultra neoliberais, que vicejam em vários países. “As mulheres argentinas garantiram uma importante vitória, não apenas para seu país, mas para toda a América Latina, legando para todas nós um sopro de esperança, a relembrança de que vale a pena lutar”, destaca Angela. “O movimento de mulheres argentinas tem muitas cores e nuances, mas souberam garantir a
unidade, no momento em que foi necessária, para assegurar a virada política, com forte protagonismo das jovens feministas. Este, talvez, seja seu principal recado: preservar nossas diferenças, mas assegurar que a unidade será possível em torno de garantir a Democracia e nossos direitos”, completa a secretária.

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